Domingo, 16 de Abril de 2006

Sobre cegos

Como são as coisas não, muitas vezes nós nos arrependemos do que falamos e sobre essa eu me sinto muito constrangido por ter dito. Na verdade, repassado.

No mês passado o Fábio Linjardi do Factorama colocou uma nota a respeito de um cidadão cego que teve o seu relógio "mocado" por um malaco. Achando graça, acabei fazendo a mesma pergunta do Fábio: "por que o ceguinho usava relógio?"

Pois bem, conversando esta semana com a "dignissíma" ela me afirmou que teve uma mini-palestra muito interessante com um senhor cego. Foi daí que saiu a resposta para a questão: existem relógios especiais que, quando acionados, uma gravação por voz informa o horário. Pior, custam caro. Por isso peço minhas sinceras desculpas por ser tão ignorante sobre o assunto.

A palestra foi muito proveitosa segundo ela e o senhor é um exemplo de que as coisas quando parecem ruins podem melhorar e muito. Vou tentar resumir alguns pontos.

Com 18 anos ele, que era um rapaz normal, foi ao médico oculista por causa de uma irritação nos olhos. O médico receitou um colírio por um período de 15 dias, mas ele acabou utilizando por 1 ano, o que resultou em um glaucoma e posterior perda da visão. Nessa época ele havia prestado e passado no vestibular, se não me engano para odonto. Claro que não poderia estudar. Seu noivado terminou, fazendo com que ele se isolasse do mundo em seu quarto por 1 ano.

Percebendo que não poderia continuar daquela forma resolveu sair, prestou vestibular para pessoas com deficiência, se formou em história, brigou e conseguiu ser aceito para dar aulas, casou-se com uma mulher também cega, têm três filhas e é de um humor incrível.

Diz logo ao chegar na sala "se algum de vocês quiser fazer alguma pergunta, levante o braço por favor". Ou ainda, esperando a condução e indagado por uma pessoa que estava sentada ao lado, como ele conseguia identificar qual ônibus deveria pegar ele responde com um "pelo barulho do motor".

E ainda um fato que ocorreu com um amigo que também é cego. Ao tentar atravessar a rua o amigo sente alguém pegar o seu braço e lhe perguntar se ia atravessar? Tudo tranquilo até que os dois chegam ao outro lado e sacam as suas varinhas! Isso mesmo, os dois eram cegos e disseram que nunca passaram um aperto tão grande!!!

O que mais comoveu foi uma questão levantada por um amigo na sala a respeito do que ele mais sentia falta de ver? Imaginam o que seja?

Pois bem, o que ele mais gostaria de ver e infelizmente não vai poder são suas três filhas.

Isso nos fez, eu e a dignissíma, refletir e mesmo assim não chegamos a um consenso. O que seria menos pior: nascer cego ou ficar cego? Já pensaram sobre isso? Então pensem, mas quando encontrarem alguém com alguma deficiência, não sintam pena e nem trate-as como se fossem diferentes, isso seria, segundo ele, a pior coisa que alguém poderia fazer.

Escrito por Sergio em 21:59:23 | Link permanente | Comments (1) |
Comentário
1 - Olá,
Acredito que ficar cego é bem pior do que nascer cego. Quando você nasce cego você provavelmente não vai sentir saudades nem falta de algo que usava muito.

Ao ficar cego você deve se readaptar totalmente, pois tudo será diferente. Deve ser um grande impácto.

Muito bom seu blog. Já está nos favoritos!
Flw (Comentar)

Escrito por: Gustavo Paes em 2006/04/19 - 15:53:36
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